Evidências no COVID-19: Ouvindo um Jogo de Basquete no Rádio

O que você quis dizer com esse título?

Não sei vocês, mas já cheguei a ouvir partidas de futebol no rádio. É impressionante a velocidade que o radialista narra a partida de futebol e com inúmeros detalhes - chega faltar ar por vezes. Além disso, é impressionante o tom de emoção que ele transmite na narração. Faz um amistoso entre times da série D parecer uma final da Copa do Mundo da FIFA. Temos que enaltecer essa profissão. Realmente, não é para qualquer um.


Listo, aqui abaixo, as características importantes de um radialista de uma partida de futebol:

  • Narração em uma velocidade impressionante;

  • Tom de emoção drástico e carregado de final da copa do mundo.

Uma partida de futebol, em média, são feitos 2-3 gols por partida em um tempo de bola rolando de 100 minutos aproximadamente. Para mais, o campo de futebol é muito grande em área e por vezes demora para ocorrer um contra-ataque e não é tão fácil fazer gols.


Perceba que são feitos apenas 2-3 gols em 100 minutos com um ritmo de jogo moderado e o narrador já fala naquela velocidade frenética que até a respiração fica procurando espaço para acontecer.


Inversamente a uma partida de futebol, em uma partida de basquete, a pontuação de cada time é de 100 pontos por partida, totalizando 200 pontos por partida em um tempo de bola rolando de 48 minutos (NBA).


Diferente do campo de futebol, uma quadra de basquete é pequena e o tempo inteiro é contra-ataque e ataque. Perceba que aqui são 200 pontos em 48 minutos com um ritmo de jogo frenético. Cesta para um time de um lado, depois de 3 segundos já é "enterrada" para o outro time.


A pergunta que não quer calar:

Como estaria o radialista narrando o jogo nesse momento?

Se no futebol já era com velocidade e emoção, aqui não consigo nem imaginar.


Aliais, você consegue sim. E não precisa nem imaginar. Você já está vivendo isso. Estamos diante desse cenário no ecossistema científico do COVID-19.


O que isso tem haver com o cenário científico do COVID-19?

Quando me referi ao rádio, gostaria de trazer aquelas duas características que trouxe no início do texto:

  • Velocidade frenética de publicações que não temos nem tempo de processar;

  • Tom emocional, dogmático e polarizado que os artigos vem sendo escritos.

Cada artigo publicado a favor da droga Y é uma gritaria e comemoração da "torcida pró-droga". Por outro lado, cada evidência que é lançada demonstrando a ausência de benefício da droga Y - novamente - balbúrdia e festa na "torcida contra-droga".

Por que o basquete?

Porque não bastava ser uma simples narração de rádio de futebol (cenário de publicação científico habitual) para poder comparar o cenário científico do COVID-19. O cenário como adjetivei anteriormente está frenético. Com cestas (artigos) sendo feitas uma atrás da outra, sem parar, de um lado (positivos) e do outro (negativos).


Quer dizer que é inusitado esse comportamento do jogo de basquete no rádio do ecossistema científico?

Não. Na verdade, ele está exacerbando o que já existe há muito tempo no ecossistema científico. Estamos vivendo uma época pandêmica de publicações, mas no período pré-pandemia temos de forma endêmica esse fenômeno.


Atualmente, se publica muito lixo científico, com evidências que apenas fazem número e citações nos egos dos pesquisadores. O metacientista John Ioannidis, em sua publicação em 2005, já alertava sobre esse fenômeno com a categórica publicação intitulada de:

Why Most Published Research Findings Are False

(recomendo a leitura)


A disputa e polarização em verdadeiras "torcidas organizadas" a favor ou contra das condutas médicas são coisas que sempre existiram. Você provavelmente já ouviu seu professor falar:

"Turma, essa é uma conduta que existe um grupo de médicos que é favor e adotam essa tratamento e um grupo de médicos que é contra essa prática e não adotam isso no seu leque de abordagem"
"A literatura é muito controversa nessa conduta, uns dizem que sim, outros dizem que não. Por isso, tem pessoas que adotam e tem pessoas que não adotam"

Não deveria existir isso. Ou a prática se demonstra benéfica para aquele paciente e ela deve ser adotada, ou não foi possível demonstrar o benefício dessa conduta, por isso fico com a hipótese nula da ideia que não sei se é eficaz e por isso não vou fazer.


Se a evidência é controversa, precisamos olhar para elas com o crivo metodológico e caso nenhuma delas seja de qualidade para ser confirmatória, ficamos novamente com a hipótese nula: eu não sei.


Isso é uma ideia difundida e criada por um grande cientista da área da medicina, Dr. Luis Correia, que é o cerne do pensamento médico: o princípio da hipótese nula.


Eu parto do princípio cético da nulidade da conduta, ou seja, do não sei. Se você não sabe, você não irá adotar essa conduta. Não podemos partir do princípio que algo tem benefício e precisamos provar que esse benefício não existe, por dois motivos:

  • Motivo 1: fere o cerne do princípio científico do ceticismo e da humildade;

  • Motivo 2: não é possível demonstrar a inexistência de um fenômeno, podemos apenas relatar que não sabemos se esse fenômeno existe.

Ausência de evidência, não é sinônimo de evidência de ausência.

Voltando Para o Jogo de Basquete no Rádio

Estamos enfrentando hoje um excesso de informações, um grito muito alto das TUCs (Torcidas Uniformizadas de Cientistas) e ficamos no meio dessa gritaria e confusão perdidos e desemparados sem saber em quem confiar e no que fazer.


Não é muito difícil saber o que fazer do ponto de vista científico. Como disse anteriormente, não devemos nos unir a uma TUC e torcer por um dos resultados de meros estudos científicos de péssima qualidade. Precisamos nesse momento vestir a única camisa que deveria existir: ceticismo científico.


O que isso quer dizer? Não vamos acreditar em nada e negar tudo que me falarem? Não. Até porque você seria confundido como um membro das TUCs contra a evidência em jogo. Precisamos apenas adotar o princípio da hipótese nula:

"Eu não sei"

Se eu não sei se a conduta é de fato verdadeira ou não, simplesmente - angustiado e inseguro - abraço a incerteza e assumo minha incapacidade de predizer a resposta desse fenômeno. Seja humilde. Afinal, a maior parte das coisas que acontecem na história da humanidade acontecem por acaso.


Desligue um pouco o rádio. Raciocine e pense nas informações que você tem em posse.

Obtenha seus próprios conceitos sobre a situação.

Grite menos. Pense mais.

Humildade e ceticismo.

Seja um verdadeiro cientista.