MANEJO DA DOR

INTRODUÇÃO

Nem sempre na Medicina seremos capazes de curar o paciente ou limitar a sua doença. Entretanto, um dos pilares do cuidado é justamente o alívio dos sintomas.

Durante nossa formação médica será comum nos depararmos com pacientes sentindo dor, sendo essa a principal queixa clínica dos pacientes que procuram departamento de emergência. Seja devido a uma simples cefaleia ou devido a um câncer em estado avançado...Não importa o cenário: é sempre necessário que saibamos como manejar esses pacientes, conhecendo as principais opções farmacológicas que podem ser utilizadas, seus efeitos adversos e suas contraindicações.

Ficaram ansiosos? Então vamos lá! Começando com a....

DOR AGUDA

Alguns exemplos de dores agudas que são bastante comuns no dia a dia da emergência são a cólica renal, cólica biliar, cefaleias, lombalgia, artralgias, entre outras. Independente do tipo da dor, essa deve sempre ser tratada com base na experiencia dos pacientes – e não com base no que “o médico acha”, visto que ela é uma experiência subjetiva. Ou seja, devemos evitar pensamentos como “Esse quadro não gera uma dor tão forte assim”, “Já atendi tantos pacientes e nenhum teve uma dor tão forte assim”, e lembrar sempre do caráter multifatorial da dor.

É sempre válido lembrar que a depender da intensidade da dor, diferentes analgésicos - com potências distintas – podem ser oferecidos para os pacientes e que, apesar de aqui eles estarem esquematizados em ordem crescente de potencial analgésico, nem sempre iremos iniciar o manejo da dor tratando o paciente com dipirona ou paracetamol, tá certo? Isso porque algumas dores (ex: cólica renal) exigem uma analgesia mais vigorosa.

Além disso, no momento da escolha do fármaco, devemos levar em consideração o histórico prévio do uso de analgésicos (ex: paciente que já teve a mesma dor várias vezes e relata que a medicação x nunca funcionou), características da dor, patologias prévias (ex: DUP ou DRC, importantes comorbidades a serem pesquisadas caso eu queira usar AINEs), alergias e principalmente o tempo de ação da droga, a intensidade da dor, bem como a disponibilidade no serviço e os efeitos colaterais.

Quanto às vias de administração, tem-se três principais:

  • Oral: Preferencial, sempre que possível. Tempo para o início da ação é mais demorado.

  • Endovenosa: Via de escolha nos pacientes instáveis ou com dor aguda intensa.

  • Subcutânea: É mais escolhida em pacientes sem condições de ingesta oral ou acesso venoso.

 

Opções terapêuticas:

Vamos iniciar com os analgésicos não-opioides mais conhecidos: a dipirona e o paracetamol, também chamados de sintomáticos.

1. DIPIRONA

A dipirona é um potencial analgésico, podendo ser utilizado para dores leves, moderadas e intensas. Não é muito utilizada nos EUA pelo seu – raro – risco de agranulocitose e aplasia medular, mas aqui no Brasil ela é disponível pelo SUS. Tanto ela quanto o paracetamol, apesar de conhecidos como analgésicos (como havia dito acima), também são classificados como AINES de baixo efeito anti-inflamatório. Sendo assim, o mecanismo de ação da dipirona objetiva a inibição da via das prostaglandinas, aquelas moléculas que emitem sinais químicos da dor na cascata inflamatória.

 

Uso: Intravenoso (na emergência) ou VO (ao liberar o paciente para casa, por exemplo). A apresentação é de 500mg/mL, sendo que a ampola tem 2ml, ou seja, o uso preconizado é de 1g.

500 a 1mg VO, de 4/4 horas, sendo sua dose máxima 6g/dia.

 

Efeitos adversos: Prurido, ardor, rubor, urticária, inchaço.

 

Sua toxicidade é idiossincrática, ou seja, depende muito do perfil do indivíduo, sendo que prevalência de alergia a esse fármaco é considerável (quem não conhece alguém alérgico a dipirona, hein?).

 

Contraindicações: Função da medula óssea prejudicada, doenças do sistema hematopoiético, gravidez e lactação. Essas contraindicações hematopoiéticas se relacionam com o risco de agranulocitose e aplasia medular citados acima

 

Obs: Ela faz parte dos MIP (medicamentos isentos de prescrição médica). É por isso que o seu acesso é tão difundido e seu uso é bastante comum.

​2. PARACETAMOL

 Trata-se de um analgésico com ação parecida com a dipirona. Aqui no Brasil, usamos mais ele em casos de pacientes alérgicos a dipirona (mas isso varia muito de acordo com a prática do médico). Ele também pode ser usado para dores leves, moderadas e intensas, sendo conhecido nos EUA como acetaminofeno.

 

Uso:

325-500mg de 4-4 horas | 750mg-1g de 6-6 horas, só disponível VO.

 

Dose máxima: 4g/dia. Mesmo que usado em doses terapêuticas, mas por um tempo prolongado, pode causar aumento – ainda que assintomático – das transaminases. É um medicamento com alto poder hepatotóxico, sendo uma das principais causas de insuficiência hepática nos EUA.

 

Efeitos adversos: Hepatotoxicidade e aumento das transaminases.

 

Contraindicações: Hepatopatia grave.

 

 

 ​3. AINES

De forma geral, os AINES (anti-inflamatórios não esteroidais) são indicados para dores leves. Porém, independentemente da intensidade, são úteis para os casos em que a fisiopatologia da dor envolve inflamação (ex: artrite, entorses, casos de lombalgia etc.). Não existem fortes evidências sugerindo a superioridade de alguns AINES em relação a outros.

 

Existem os  AINEs não seletivos, que são os mais antigo e inibem tanto a COX-1 quanto a COX-2, além dos AINEs seletivos, que inibem somente a COX-2 e são designados "COXIBEs",

 

Não-seletivos: Diclofenaco (SUS), Nimesulida, Cetoprofeno, Tenoxicam.

 

Seletivos: Eterocoxib (Arcoxia) e Celerocoxib (Celebra). São medicamentos caros e estão relacionados a um maior risco de eventos cardiovasculares, pois aumentam chance de trombose. Isso ocorre porque eles desviam o metabolismo do ácido araquidônico para a síntese de tromboxano A2, um forte indutor da agregação plaquetária.

 

Uso: variado de acordo com o fármaco escolhido

 

Efeitos adversos: Dispepsia (já que a COX-1 exerce ação protetora na mucosa gástrica) e efeitos GI, além de efeitos renais (pode precipitar uma IRA). Por isso, seu uso deve ser cauteloso nos pacientes com insuficiência renal, e também naqueles que utilizam iECA/BRA, fármacos que conhecidamente podem levar ao declínio da taxa de filtração glomerular. Para eventos agudos o seu uso é até menos prejudicial, mas o uso crônico está relacionado a efeitos adversos importantes.

 

Contraindicações: Injúria renal aguda ou crônica e doença ulcerosa péptica

 

Segundo algumas fontes, os AINES também têm inteiração com medicações utilizadas para doenças cardiovasculares. Ou seja, cuidado com os cardiopatas! Fora isso, eles levam à retenção de líquidos e devem ser prescritos com cautela em pacientes com hipertensão, insuficiência renal ou insuficiência cardíaca.

 

​4. OPIOIDES

Os opioides agem hiperpolarizando a célula, impedindo a propagação dos impulsos nervosos dolorosos. Todos agem no mesmo receptor (receptor mu), diferindo entre si quanto à potência, velocidade de início, duração e via de administração.

 

Representantes: Codeína, Tramadol, Morfina e Oxicodona, em ordem crescente de potência. Há também a Metadona, a qual causa menos risco de dependência e tem mesma potência que a morfina (isso acontece pois sua meia-vida é mais longa - cerca de 24hrs -, o que faz com que ela esteja menos associada a “picos”).

 

Eles não são a primeira escolha para o manejo da dor aguda. Porém, como eu havia dito lá em cima, não podemos sempre subestimar a dor do paciente e em todos os casos iniciar dipirona IV. Precisamos entender que dores fortes exigem analgesia forte, então em alguns casos remédios como os opioides serão necessários como primeira opção.

Codeína

Trata-se de um opioide fraco e que também tem efeito anti-diarreico e anti-tussígeno, sendo o opioide que mais causa constipação.

 

Nomes comerciais: Tylex (codeína + 500mg de paracetamol) – Até 60mg, 2 comprimidos de 6/6 horas, VO e Ultracet (codeína + diclofenaco).

Uso:

16-50mg VO, IM, SC de 4-6x/dia, sendo sua dose máxima 360mg/dia.

 

Receituário:

  • Até 100mg/unidade posológica = Substâncias sujeitas a controle especial. Receita de Controle Especial em Duas Vias.

  • > 100mg/unidade posológica = Substâncias entorpecentes. Receituário Amarelo.

 

 

Tramadol   

Já é um opioide mais forte. Além disso, pode ser usado na insuficiência renal – com o adequado ajuste da dose – e também no tratamento da dor neuropática.

 

Nomes comerciais: Tramal - Até 100mg de 6/6h EV ou VO

 

Uso:

50-100mg VO/EV de 4/4h ou de 6/6h, sendo sua dose máxima 400mg/dia.

 

Ele tem como principal efeito adverso as náuseas, possuindo um grande poder emetogênico (isto é, um grande poder de gerar vômitos e náuseas). Por isso geralmente é comum associá-lo a um anti-emético, como por exemplo: Metoclopramida (Plasil), ondasetrona (Vonau), dimenidrato (Dramin).

 

Efeitos colaterais: Náuseas, vômitos e vertigem

 

Obs: Eles têm um mecanismo de ação semelhante aos anti-depressivos não-seletivos – os quais veremos mais a frente – pois também inibem recaptação de serotonina e adrenalina.

 

Receituário:

  • Até 100mg/unidade posológica = Substâncias sujeitas a controle especial. Receita de Controle Especial em Duas Vias

  • > 100mg/unidade posológica = Substâncias entorpecentes. Receituário Amarelo.

 

 

Morfina

O velho e famoso Dimorf. Trata-se de um opioide mais forte que os acima - usado em casos mais restritos de dores agudas muito intensas - apesar de ser menos potente que a oxicodona. Ela tem um bom perfil de segurança, é de fácil titulação – logo consigo controlar facilmente as suas doses – e tem excelente potência analgésica.

 

De maneira geral, no uso da morfina, opta-se preferencialmente pela via endovenosa. Além disso, a dose inicial deve ser baseada na dose de uso prévio, e caso o paciente seja virgem de opioide, inicia-se com 2-5mg.

 

Uso:

Oral: 5-30mg VO de 4/4h.

Endovenoso: 2-10mg/70kg de peso.

Existem ampolas de 2mg e de 10mg Há VO, IV, SC, IM, além de epidural e intratecal (diretamente no canal raquidiano).

Sua meia-vida é curta: ele começa a agir em 5min, tem pico em 30min e dura até cerca de 2horas.

 

Efeitos colaterais: Sedação, hipotensão, depressão respiratória, constipação (podendo causar até fecaloma), euforia, broncoespasmo e prurido (esses efeitos acontecem devido a liberação de histamina).

Contraindicações:

  • Crise asmática: devido à indução de broncoespasmo.

  • DPOC

  • Gravidez

  • Obstrução GI e íleo paralítico

  • PO de cirurgia do trato biliar, abdômen e anastomoses

  • Depressão ou insuficiência respiratória

  • Paciente com “Doença do SNC” (HIC, lesões cerebrais, tumores): a morfina causa retenção de CO2 e deprime o centro respiratório, levando a vasodilatação dos vasos cerebrais. Logo, não use nesses pacientes!

 

Receituário:

  • Até 5mg = Substâncias sujeitas a controle especial. Receita de Controle Especial em Duas Vias

  • > 5mg = Substâncias entorpecentes. Receituário Amarelo.

 

 

Oxicodona

Só tem como apresentação VO, logo é uma opção àqueles pacientes que são candidatos a usar morfina em ambiente não hospitalar (sem acesso venoso).

Uso:

10-40mg VO de 12/12h.

Receituário:

  • Substâncias entorpecentes. Receituário Amarelo.

Se liga nessa: o antagonista dos opioides é conhecido como Naloxona. Assim, devido aos possíveis efeitos colaterais desses fármacos, a naloxona deve estar imediatamente disponível sempre que sejam utilizados opioides em doses elevadas ou em pacientes com função pulmonar comprometida.

 

E em falar em efeitos colaterais, esses deve ser prontamente controlados caso surjam. No caso da constipação, preferimos laxantes irritativos e no caso das náuseas, optamos por Metoclopramida ou Haldol. Para o prurido, usa-se anti-histamínicos e, para retenção urinária, a Tansulosina. Por fim, em casos de depressão respiratória, devemos medicar apenas se houver rebaixamento do sensório ou iminência de parada respiratória, utilizando Naloxona.

 

Ainda assim, os efeitos colaterais em geral tendem a melhorar com o transcorrer do tempo, com exceção da constipação. Uma coisa que pode ser feita para atenuá-los é a chamada rotação de opioides: mudança do agente opioide ou da via de administração.

 

Situações específicas:

Em algumas situações álgicas especiais, podemos lançar mão de outros fármacos para o manejo da dor. Nesse caso, as medicações irão agir no mecanismo de ação que está gerando a dor. Exemplos:

  • Enxaqueca: podemos usar os Triptofanos, apesar de não ser um remédio acessível, principalmente nos PA.

        Ex: Sumax (Sumatriptano)

  • Dor em cólica: podemos usar um anti-espasmódico como a Escopalamina (Buscopan).

  • Dor da isquemia miocárdica: a primeira opção será sempre o Nitrato sublingual (Isordil ou Sustrate), sendo mandatório oferece-lo antes de administrar a morfina, que só é usada em casos de dor refratária. Lembre-se de que morfina causa hipotensão, o paciente cardiopata (principalmente se tiver IAM de VD, onde morfina vira contra-indicação) pode descompensar de vez.

  • Lombalgia: há a possibilidade de se associar a relaxantes musculares, como Orfenadina (Dorflex) ou Carisoprodol.

Curiosidades:

Certos medicamentos para o controle da dor são de receita amarela (medicações entorpecentes e alguns psicotrópicos), pois são de uso controlado. Além dessa, temos a receita azul (mais frequente que a amarela), para os benzodiazepínicos e anorexígenos por exemplo, remédios. Essa serve para medicações que geram dependência, como os psicotrópicos. Para tê-las, os médicos precisam solicita-las para um órgão de saúde, sendo que geralmente os que tem são aqueles especialistas que lidam com manejo da dor.

 

ALGUNS CUIDADOS QUE NÃO PODEMOS ESQUECER:

  1. Pacientes idosos: o risco de efeitos colaterais é maior. Há toda uma alteração no metabolismo e também na excreção do fármaco. Logo, cuidado com as doses!

  2. Insuficiência renal e hepática: geralmente diminuímos a dose. Na renal, cuidado sobretudo com uso de AINES.

 

Considerações gerais:

No manejo da dor aguda no cenário da emergência, o indicado é que se utilize a via intravenosa, pois ela permite um melhor controle de dosagens e um início de ação da droga muito mais rápido. Fora isso, é preferível que haja combinação de medicações, para que haja um sinergismo entre as drogas, do que o aumento indiscriminado das doses.

Lembre-se: A analgesia tem o objetivo de cessar a dor do paciente no menor tempo possível, logo não devemos ter medo de aumentar a dose ou associar medicações com medo dos efeitos colaterais (mas claro, devemos sempre estar atentos e agir com cautela).

Além disso, após início da terapia analgésica, é imprescindível que a dor do paciente seja sempre reavaliada para confirmar se a analgesia de fato está sendo eficaz. Para isso podemos usar escalas de dor (analógicas, numéricas, etc), mas sempre lembrando que a dor do paciente possui caráter extremamente subjetivo

DOR CRÔNICA (NÃO ONCOLÓGICA)

A dor crônica é caracterizada por uma sintomatologia superior a 3 meses, nem sempre sendo resultado de uma lesão, já que em alguns casos pode ser, por si só, uma patologia.

Dentre às suas classificações, ela pode ser classificada como (1) neuropática ou (2) nociceptiva.

A dor neuropática ocorre devido a uma lesão no sistema nervoso (central ou periférico), o que leva a formação de impulsos ectópicos que produzem uma dor mal caracterizada (paciente não consegue descrevê-la muito bem), percebida na região de inervação da estrutura nervosa acometida. Esse tipo de dor não responde bem aos analgésicos e AINES, sendo esse um dos motivos que mais importantes do porquê os médicos precisam se atentar em diferenciar a dor neuropática das demais.

Já a dor nociceptiva ocorre devido a uma ativação fisiológica dos receptores da dor, que geram a transdução do impulso, gerando uma sensação de dor bem localizada e bem descrita. Esse tipo de dor responde bem aos AINES e analgésicos, como já vimos anteriormente, além também de serem responsivos aos corticosteroides

Para tratamento da dor neuropática, tem-se:

  • 1ª linha: Anti-depressivos e anti-convulsivantes

  • 2ª linha: Opióides

  • 3ª linha: Combinação de analgésicos

ANTI-DEPRESSIVOS

 Os anti-depressivos podem ser divididos em três grandes classes: (1) tricíclicos, (2) inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina e (3) inibidores seletivos da captação de serotonina. Seus efeitos analgésicos tendem a surgir de forma mais rápida que os efeitos anti-depressivos e além disso, suas doses para controle da dor são menores que as doses necessárias para tratar o distúrbio depressivo.

 

Tricíclicos:

  • Amitriptilina

É uma medicação disponível no SUS e que é indicada no tratamento de 1ª linha da dor neuropática, sendo o AD mais estudado para dor crônica. A amitriptilina inibe a recaptação de noradrenalina e serotonina estimulando as duas vias descendentes inibitórias. E que vias são essas? Bom, existem duas vias ascendentes excitatórias (Glutamato e Substância P) e duas vias inibitórias (PAG e via adrenérgica, mediadas respectivamente pela serotonina e noradrenalina), as quais facilitam e dificultam, respectivamente, a condução do impulso álgico. Esse fato atribui um efeito mais potente a essa classe quando comparada aos inibidores seletivos, por exemplo, uma vez que este último inibe a recaptação apensas da serotonina, oferecendo um controle álgico menor, como veremos mais a frente.

 

Uso:

Iniciar 25 a 50mg à noite e titular até 100-150mg/dia

 

Efeitos adversos: Retenção urinária, constipação, boca seca, efeitos cardíacos (intervalo QT prolongado, aumento da condução ventricular...), explicada pelos efeitos anti-colinérgicos da droga, além de aumento do apetite, ganho ponderal, sedação e sonolência devido as propriedades anti-histamínicas dos tricíclicos.

 

Devo ter cuidado nos pacientes cardiopatas pois essas medicações aumentam a pressão arterial. Assim, os tricíclicos (principalmente aqueles com maiores efeitos anticolinérgicos) são relativamente contraindicados em pacientes com doença cardíaca grave. Outro cuidado importante são os pacientes com glaucoma de ângulo estreito e arritmias cardíacas.

 

 

Inibidores não-seletivos:

  • Venlafaxina

Iniciar 37,5 a 75mg 1x/dia VO, titulando até 225mg/dia se necessário

  • Duolexetina

Iniciar 30mg 1x/dia VO e titular até 60mg/dia se necessário.

 

São os dois AD não-seletivos validados para uso de dor crônica neuropática. Possuem ação mais rápida que a amitriptilina e causam menos efeitos adversos: eles também inibem a receptação de serotonina e noradrenalina, sem possuir fortes propriedades anti-colinérgicas e anti-histamínicas. O problema deles é o preço elevado. Além disso, não são disponibilizados pelo SUS. Eles causam menos efeitos anti-colinérgicos e risco CV que os tricíclicos. Além disso, não podem ser descontinuados de forma abrupta, exigindo um desmame de 2-4 semanas.

 

Efeitos adversos: Retenção urinária, boca seca, constipação, sedação, diminuição da libido, disfunção erétil, fadiga, dentre outros.

 

Contra-indicações: Hipersensibilidade.

 

Inibidores seletivos:

  • Sertralina

  • Fluoxetina

 

Os AD seletivos – apesar de 1ª opção no manejo do transtorno depressivo maior -  não costumam ser utilizados no manejo da dor devido às suas propriedades farmacológicas relacionadas com o seu mecanismo de ação, já que inibem apenas a SERT, a bomba de recaptação da serotonina, não interferindo na quantidade de noradrenalina presente na fende sináptica.

 

Obs. Eles causam bem menos efeitos colaterais pois são mais seletivos. Assim, possuem menor ação histamínica, adrenérgica e colinérgica, causando menos – respectivamente – sedação, hipotensão e boca seca.

 

Receituário:​

  • Todos os anti-depressivos: Substâncias sujeitas a controle especial. Receita de Controle Especial em Duas Vias.

 

ANTI-CONVULSIVANTES

Todos os anti-convulsivantes estão relacionados ao GABA, e é justamente “é justamente atuando nessa fisiologia que os anticonvulsivantes vão promover controle álgico, pois o GABA é um neurotransmissor que dificulta a propagação ascendente do impulso, ou seja, ele dificulta a condução do estímulo doloroso para o SNC.

 

Eles são antagonistas dos receptores alfa-2, ou seja, eles inibem alfa-2, aumentando a liberação de neurotransmissores adrenérgicos na fenda sináptica (mecanismo contrário aos anti-hipertensivos agonistas centrais, lembra?).

 

  • Gabapentina

Iniciar com 100-300 mg à noite e ir aumentando o número de administrações ao dia, para titular a dose e ir freando, aos poucos, os efeitos adversos.

 

  • Pregabalina

75mg VO de 12/12 h, com progressão para até 500-600mg/dia VO, .dividida em 2-3 doses. Máximo de 900mg/dia.

 

  • Carbamazepina (SUS):

100-200mg VO 1-4x/dia, com o máximo de 1200mg/dia.

 

A carbamazepina o único que tem no SUS. Ele não é o mais indicado para tratamento da dor crônica neuropática, com exceção em um caso: Neuralgia do Trigêmeo (onde ele entra como 1ª opção junto com a Gabapentina).

 

Obs. A gabapentina possui estrutura semelhante ao GABA, a pregabalina é um análogo do GABA e a carbamazepnina potencializa o GABA.

 

Outros: Topiramato, Lamotrigina, Valproato de sódio. A evidência de sua eficácia não é tão robusta quanto a Gabapentina ou Pregabalina e, em geral, esses agentes devem ser reservados para o tratamento de segunda linha.

 

Efeitos adversos:

  • Sonolência

  • Tontura

  • Ganho de peso (exceto Topiramato)

  • Boca seca

  • Náusea

  • Ataxia

  • Edema periférico (Pregabalina e Gabapentina)

  • Artralgia (Pregabalina e Gabapentina)

  • Nasofaringite (Pregabalina)

  • Palpitação e aumento da PA (Gabapentina)

 

Contraindicações:

  • Gravidez

  • BAV

  • Depressão da medula óssea

 

Associações: quase tudo aqui pode ser associado. Ex: 2 antidepressivos, 2 anticonvulsivantes. O problema das associações é o aumento dos efeitos colaterais.

OPIOIDES

Como mostrado acima, ele não é tratamento de 1ª linha, porém pode ser utilizado de forma mais frequente em pacientes com dor crônica oncológica (a morfina, por exemplo, é utilizada em bomba de infusão continua principalmente em pacientes oncológicos que sofrem de dor crônica), ou naqueles que tem episódios de exacerbação da dor. Seu uso é bastante validado para dores agudas, porém são drogas de 3ª linha para dor crônica, sendo utilizada em ocasiões pontuais devido ao risco de dependência.

O papel da terapia opióide nas formas e na dor está bem estabelecido, mas a administração de opióides na dor crônica não oncológica permanece controversa.

 

Obs. A maioria dos estudos de terapia farmacológica para dor neuropática se concentrou na monoterapia para uma etiologia específica (por exemplo, neuralgia pós herpética ou neuropatia periférica diabética dolorosa). Existem poucas comparações diretas de medicamentos, de modo que as estimativas de eficácia relativa dos medicamentos se baseiam em taxas de resposta comparativas entre os estudos e são imprecisas.

 

Uma estratégia inovadora para o alívio adequado da dor é o uso da analgesia controlada pelo paciente (ACP). O paciente utiliza um dispositivo de infusão que controla a dose oferecida, permitindo, por exemplo, que ao apertar um botão, doses adicionais sejam administradas. Tal estratégia tem sido mais utilizada em casos de dor no pós-operatório ou secundária a câncer metastático.

CORTICOSTEROIDES

Os corticoides são medicações com amplo uso dentro da medicina, podendo serem utilizados para diversas patologias. Apesar disso, são drogas que resguardam muitos efeitos colaterais e que não podem ser interrompidas abruptamente a partir de um uso consecutivo de 2 semanas, devendo haver um “desmame” do fármaco.

Eles são amplamente utilizados também no tratamento da dor oncológica (principalmente em estágios avançados), podendo inibir a atividade espontânea de nervos danificados devido a infiltrações ou compressão pelos tumores. Também são uteis para tratar a caquexia, situação muito comum nesse tipo de doença.

Devido ao seu caráter anti-inflamatório, além desses casos, também são usados em doenças inflamatórias, a exemplo de doenças auto-imune como a artrite reumatoide.

Mecanismo de ação: Eles inibem a fosfolipase A2, logo não há formação do ácido aracdonico, o que impede a continuidade da cascata inflamatória, que gera aqueles mediadores que vimos acima.

Representantes: Hidrocortisona (ação rápida), predinisona (ação intermediária), dexametasona (ação longa), entre outros.

Obs. Para pacientes oncológicos, o corticoide de escolha é a dexametasona, que não possui efeito mineralocorticoide, apenas glicocorticoide.

Efeitos adversos:

  • Aumento do apetite

  • Aumento da adiposidade central (distribuição centrípeta da gordura)

  • Aumento da glicemia

  • Hisurtismo

  • Osteoporose, por diminuir a absorção de cálcio no trato gastrointestinal

  • Aumento da pressão arterial, devido a seu efeito mineralocorticoide. Ocorre sobretudo quando usado em doses altas e em períodos curtos (pulsoterapia).

  • Hipocalemia, também devido ao efeito mineralocorticoide

  • Glaucoma

  • Úlceras pépticas

  • Maior suscetibilidade a infecções

 

Obs². A maioria dos efeitos observados acima são característicos do uso prolongado desses medicamentos.

 
 
 

Para finalizar nosso post, deixo aqui a escala analgésica da OMS, que correlaciona a intensidade da dor com os diferentes fármacos que são necessários para cessá-la. Dá uma olhada aqui embaixo:

 

REFERÊNCIAS

  • Medicina de Emergência – Abordagem Prática. Emergências clínicas da USP. 13ª edição

  • Martins et al. Manual do Residente de Clínica Médica da USP – FMUSP. 2ª edição. Editora Manole.

  • Taube, D. Approach to the management of chronic non-cancer pain in adults. Uptodate, 2020.

  • Rosenquist, E. W. Overview of the treatment of chronic non cancer pain. Uptodate, 2020.

  • Patel et al. Guia para tratamento da dor em contextos de poucos recursos. Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP).

Envie-nos seu Feedback
Você recomendaria esse post ?