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ECG - FUNDAMENTOS

Se tem um exame que qualquer estudante de medicina já fica todo preocupado só de ouvir, esse exame é o famoso Eletrocardiograma (ECG). Da próxima vez que o seu professor perguntar sobre um ECG na sua aula, nós, do SYNAPSE, não queremos que você fique perdido com todas essas linhas sem entender nada! Por isso, elaboramos para vocês uma série de posts a respeito deste exame, sendo este o primeiro deles. 

Nessas postagens, vamos abordar desde os conceitos básicos do ECG até as principais alterações que podemos encontrar neste exame.​

A divisão deste tema vai se dar da seguinte forma:

  1. Fundamentos;

  2. Hipertrofia e Dilatação;

  3. Bloqueios de Condução;

  4. Isquemia, Lesão e Necrose.

Esta postagem, portanto, refere-se aos fundamentos do ECG, os conceitos básicos que devemos conhecer para podermos compreender este exame e saber interpretá-lo! Aqui, você vai entender como a corrente elétrica é gerada e se propaga através do coração, como essa corrente produz padrões de ondas visíveis no ECG e como visualizar essa corrente através de 12 perspectivas diferentes (derivações).

Mas por que este exame é tão importante na prática médica? O ECG é capaz de nos fornecer informações importantes acerca da atividade elétrica cardíaca, que pode estar alterada em muitas doenças importantes, como síndromes coronarianas agudas, insuficiência cardíaca, tromboembolismo pulmonar… E o melhor de isso tudo é que ele nos traz essas informações de forma práticarápida e barata! Portanto, este é um exame extremamente importante e útil na medicina, especialmente em situações emergenciais.


O eletrocardiograma consiste no registro da atividade elétrica do coração, portanto, para compreendê-lo, precisamos antes retomar alguns conceitos importantes da eletrofisiologia cardíaca.

 

ELETROFISIOLOGIA

A eletricidade é o que faz o coração bombear e, ao identificar problemas no padrão elétrico cardíaco, podemos diagnosticar muitos problemas cardíacos!

 

As células cardíacas, quando estão em estado de repouso, têm seu meio interno carregado negativamente em relação ao meio externo, isto é, elas são eletricamente polarizadas. Quando elas perdem essa negatividade interna, esse processo se chama despolarização, o qual consiste no evento fundamental da atividade elétrica cardíaca.

As células marca-passo do coração promovem a despolarização espontaneamente, enquanto que em outras células (células de condução elétrica), ela ocorre a partir da chegada de um impulso elétrico que leva íons positivos para o meio interno. Desta forma, a despolarização é propagada de célula a célula, produzindo uma onda que pode ser transmitida por todo o coração, representando um fluxo de eletricidade, o qual pode ser detectado por eletrodos colocados na superfície do nosso corpo.

 

Após a despolarização, as células restauram a sua polaridade de repouso por meio da repolarização, a qual é realizada pelas bombas transmembrana, que invertem o fluxo de íons. Todos os traçados que vemos em um ECG são manifestações desses dois eventos: despolarização e repolarização.

Quando registramos o ciclo de despolarização e repolarização de uma célula, obtemos um traçado elétrico, chamado de potencial de ação. Com cada despolarização espontânea (pelas células marca-passo), é gerado um novo potencial de ação, que estimula as células vizinhas a se despolarizarem e gerarem seus próprios potenciais de ação, até que todo o coração se despolarize.

Essas células marca-passo estão localizadas na porção superior do Átrio Direito, formando o que chamamos de Nó Sinoatrial (SA). Esse conjunto de células, em condições normais e com o indivíduo em repouso, disparam em uma frequência de 60 a 100 batimentos por minuto, gerando uma série regular de potenciais de ação.

As células de condução elétrica transportam a corrente gerada pelo Nó SA de forma rápida e eficiente por todo o coração. As células miocárdicas, por outro lado, são responsáveis pela contração e relaxamento do coração, ou seja, exercem a sua atividade de bomba a partir do estímulo das células elétricas. As células miocárdicas também podem transmitir uma corrente elétrica, mas o fazem com muito menos eficiência e, portanto, uma onda de despolarização, ao atingir as células miocárdicas, irá se espalhar lentamente por todo o miocárdio.

 

TRAÇADO DO ECG

As ondas traçadas no ECG refletem, principalmente, a atividade elétrica das células miocárdicas, umas vez que elas correspondem à maioria da massa cardíaca. As atividades das células marca-passo e de condução não são vistas no eletrocardiograma, pois esses eventos não geram voltagem suficiente para serem registrados pelos eletrodos.

As ondas produzidas pela atividade elétrica miocárdica (despolarização e repolarização) são registradas no exame, e como qualquer outra onda, têm três características principais:

  1. Duração (ms);

  2. Amplitude (mV);

  3. Configuração (critério subjetivo referente à forma e aspecto).

PAPEL DO ECG

O papel do eletrocardiograma apresenta algumas linhas, que facilitam a sua interpretação. As linhas claras circunscrevem pequenos quadrados de 1x1mm, enquanto que as linhas escuras delineiam grandes quadrados de 5x5mm, como vemos na figura abaixo. 

O eixo horizontal mede o tempo: a distância de um quadradinho (pequeno quadrado) representa 40ms (0,04s), enquanto que a distância de um quadradão (grande quadrado) é cinco vezes maior, ou seja, 200ms (0,2).  

 

O eixo vertical mede a voltagem: a distância de um quadradinho corresponde a 0,1mV, enquanto que um quadradão representa 0,5mV.​

 

ONDAS E COMPLEXOS

Vamos seguir um ciclo cardíaco de sístole e diástole, atentando-se para os eventos elétricos que produzem as ondas e linhas básicas do ECG.

DESPOLARIZAÇÃO ATRIAL

Quando o Nó SA dispara (espontaneamente), uma onda de despolarização começa a se espalhar pelo miocárdio atrial e a despolarização das células miocárdicas atriais resulta na contração atrial.

Durante a despolarização e contração atrial, os eletrodos colocados na superfície do corpo registram um pequeno surto de atividade elétrica que, normalmente, dura uma fração de um segundo, a Onda P.

Onda P: Registro da disseminação da despolarização pelo miocárdio atrial do início ao fim.

Como sabemos, o Nó SA localiza-se no Átrio Direito (AD), portanto, ele começa a se despolarizar antes do Átrio Esquerdo (AE), terminando antes também. Dessa forma, a primeira parte da Onda P representa, predominantemente, a despolarização do AD e a segunda parte a despolarização do AE.

PAUSA ENTRE A CONDUÇÃO ATRIAL E VENTRICULAR

Em condições normais, após a onda de despolarização finalizar a sua jornada pelos átrios, ela é impedida de se comunicar com os ventrículos pelas válvulas cardíacas. A condução elétrica é canalizada pelo septo interventricular, chegando através das vias internodais até o Nó Atrioventricular (AV), o qual reduz a velocidade de condução, provocando uma pausa que dura apenas uma fração de um segundo.

 

Esse atraso fisiológico é importante para que os átrios terminem de se contrair antes que os ventrículos começem, mantendo o ciclo cardíaco adequado.

DESPOLARIZAÇÃO VENTRICULAR

Após 100ms, a onda de despolarização escapa do Nó AV e se dissemina rapidamente para os ventrículos por meio das células de condução elétrica. O sistema de condução ventricular apresenta uma complexa anatomia, a qual consiste essencialmente de (1) Feixe de His; (2) Ramos do Feixe e (3) Fibras Terminais de Purkinje.

O Feixe de His se divide em ramos direito e esquerdo quase que imediatamente após emergir do Nó AV. O Ramo Direito leva a corrente para baixo pelo lado direito do septo interventricular até o ápice do ventrículo direito. 

Já o Ramo Esquerdo divide-se em três fascículos:

  • Fascículo Septal: despolariza o septo interventricular da esquerda para direita;

  • Fascículo Anterior: Corre pela superfície anterior de VE;

  • Fascículo Posterior: Corre a superfície posterior de VE.

Os ramos direito e esquerdo terminam em inúmeras Fibras de Purkinje, as quais fornecem a corrente elétrica para o Miocárdio Ventricular, produzindo a contração ventricular. Ela é marcada por uma glande deflexão chamada de Complexo QRS

Complexo QRS consiste em várias ondas distintas, cada uma com o seu nome:

  • Se a primeira deflexão for para baixo, é chamada de Onda Q;

  • A primeira deflexão para cima é chamada de Onda R;

  • Se houver uma segunda deflexão para cima, ela é chamada de R';

  • A primeira deflexão para baixo, após uma deflexão para cima, é chamada de Onda S;

  • Se toda a configuração consistir em uma deflexão para baixo, a onda é chamada de Onda QS.

Abaixo, seguem exemplos desses complexos.

A primeira parte do Complexo QRS corresponde à despolarização do septo interventricular pelo fascículo septal do ramo esquerdo do Feixe de His. Os ventrículos direito e esquerdo se despolarizam praticamente ao mesmo tempo, no entanto, sabemos que a massa ventricular esquerda é muito maior que a direita, portanto, a maior parte do que visualizamos no eletro é a ativação ventricular esquerda.

REPOLARIZAÇÃO VENTRICULAR

Após a despolarização dos ventrículos, as células miocárdicas passam por um curto período no qual elas são resistentes a outra estimulação para então se repolarizarem. A repolarização ventricular representa a Onda T no ECG.

A repolarização miocárdica é um processo mais lento que a despolarização. Dessa forma, a Onda T é mais larga do que o Complexo QRS e a sua configuração é arredondada.

 

SEGMENTOS E INTERVALOS

Quando olhamos para um traçado de ECG, vemos ainda algumas linhas retas entre as ondas e complexos. Elas são chamadas de segmentos ou intervalos. Um segmento consiste em uma linha reta que conecta duas ondas, enquanto que um intervalo engloba pelo menos uma onda mais a linha reta de conexão. Dentre essas linhas, nós temos, de maior importância, o Intervalo PR, Segmento ST e Intervalo QT.

Intervalo PR: Engloba a Onda P e a linha reta que a conecta ao Complexo QRS. Sendo assim, ela representa o tempo desde o início da despolarização atrial até o início da despolarização ventricular, ou seja, a Onda P + Segmento PR. O Intervalo PR normal dura de 120 - 200 ms (3 a 5 quadrados pequenos).

Segmento PR é justamente a linha reta que parte do final da Onda P até o início do Complexo QRS, medindo o tempo do final da despolarização atrial até o início da despolarização ventricular.

Segmento ST: O segmento ST é a linha reta que conecta o final do Complexo QRS ao início da Onda T, portanto, mede o tempo entre o final da despolarização ventricular e o início da repolarização ventricular.

Intervalo QT: Este inclui o Complexo QRS, o Segmento ST e a Onda T, medindo, portanto, o tempo do início da despolarização ventricular ao final da repolarização ventricular.

Já o Intervalo QRS é usado para descrever apenas a duração do Complexo QRS, sem nenhum segmento de conexão, medindo a duração da despolarização ventricular. Em condições normais, ele dura de 60 - 100 ms (1,5 a 2,5 quadradinhos).

Intervalo RR: Este intervalo mede a duração entre duas Ondas R consecutivas, ou seja, representa a duração de um ciclo cardíaco! Este intervalo é muito útil para estimarmos a frequência cardíaca. E como fazemos isso?

Existe uma forma muito prática e fácil para estimar a FC no ECG: basta contar quantos quadradões existem entre duas Ondas R consecutivas e dividir 300 por esse número. Por exemplo, vamos supor que há 4 quadradões entre duas Ondas R em certo ECG: 300/4 = 75. Portanto, a FC deste paciente está em torno de 75bpm. Se quisermos ser mais precisos, precisaremos contar também os quadradinhos e dividir 1500 por eles, no entanto, de forma geral, a aproximação por esse macete é o suficiente.

 

REGISTRO DA ATIVIDADE ELÉTRICA

Agora que já vimos o que cada parte do traçado do ECG significa, você deve estar se perguntando: como esse registro acontece? Ao realizarmos um eletrocardiograma, colocamos alguns eletrodos na superfície do corpo, de forma que a despolarização e repolarização miocárdica cheguem neles e descreva as ondas que acabamos de ver!

Para entendermos como isso acontece, devemos compreender alguns princípios básicos:

  • Uma onda de despolarização se movendo em direção a um eletrodo positivo causa uma deflexão positiva;

  • Uma onda de despolarização se movendo no sentido contrário a um eletrodo positivo causa uma deflexão negativa.

Mas e se agora colocarmos o eletrodo no meio da célula? Aposto que você já imagina o que vai acontecer: à medida que a despolarização se aproxima do eletrodo, o ECG registra uma deflexão positiva, porém, no momento em que a onda atinge o eletrodo, as cargas positiva e negativa se equilibram, de forma a se neutralizarem. Neste momento, o registro do ECG retorna à linha de base. Quando agora a despolarização se distancia do eletrodo, é inscrita uma deflexão negativa. Quando todo o músculo está despolarizado, o ECG retorna à linha de base novamente! Uma onda desse tipo é chamada de onda bifásica. Vemos a representação deste fenômeno nas figuras abaixo.

Mas e se o músculo estiver se repolarizando? Os efeitos são similiares, porém com as cargas invertidas! Ou seja, se uma onda de repolarização se move em direção a um eletrodo positivo, tem-se uma deflexão negativa no ECG. Logicamente, quando uma onda de repolarização se afasta do eletrodo positivo, escreve-se uma deflexão positiva. Do mesmo modo que uma despolarização perpendicular (aquela em que o eletrodo fica no meio da célula) ao eletrodo produz uma onda bifásica, a repolarização também o faz. Porém, desta vez a deflexão negativa precede a deflexão positiva.

 

AS 12 DERIVAÇÕES

Tendo esses conceitos em mente, podemos entender agora que eletrodos colocados sobre a superfície corporal registram ondas de despolarização e repolarização do coração! 

 

Mas sabemos que o coração não é uma simples célula miocárdica, não é? Por isso, um eletrodo só não basta! Por ser um órgão tridimensional, a atividade elétrica cardíaca também deve ser registrada em três dimensões. Hoje, o eletrocardiograma padrão utiliza 12 derivações. Cada derivação vê o coração de um ângulo diferente, aumentando a sensibilidade para cada porção do órgão.

Como você deve imaginar, os registros elétricos mudam dependendo da localização exata dos eletrodos! Dessa forma, é muito importante que ao realizar um ECG, deve-se adotar os protocolos-padrão de posicionamento dos eletrodos. Sendo assim, para realizar o eletrocardiograma, dois eletrodos são colocados nos braços e dois nas pernas, os quais fornecem as base para as seis derivações dos membros. Além desses, seis eletrodos são posicionados no tórax, formando as seis derivações precordiais.

DERIVAÇÕES PERIFÉRICAS

As derivações dos membros (ou periféricas) visualizam o coração em um plano vertical, ou seja, o plano frontal. Este plano pode ser visto como um grande círculo sobreposto ao paciente, estando marcado em graus. Esses eletrodos, então, detectam as ondas de despolarização e repolarização se movendo para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita por esse círculo.

Para produzir as derivações neste plano, cada eletrodo é designado como positivo ou negativo automaticamente por circuitos dentro da máquina de ECG. Cada derivação tem seu ângulo de orientação, o qual pode ser determinado desenhando-se uma linha do eletrodo negativo ao eletrodo positivo. O ângulo resultante é expresso pela sua sobreposição no círculo do plano frontal. Calma, pode parecer confuso agora, mas em instantes tudo vai fazer sentido!

As três derivações regulares dos membros são definidas da seguinte forma:

  • D1 é feita tornando o braço esquerdo positivo e o braço direito negativo, sendo seu ângulo de orientação 0º;

  • D2 é criada tornando as pernas positivas e o braço direito negativo, sendo seu ângulo de orientação 60º;

  • D3 é feita tornando as pernas positivas e o braço esquerdo negativo, sendo seu ângulo de orientação 120º.

Já as três derivações aumentadas dos membros são criadas um pouco diferente, pois uma única derivação é definida como positiva e as outras se tornam negativas. Elas são chamadas de derivações aumentada pois a máquina de ECG precisa amplificar o traçado para obter um registo apropriado.

  • aVL é feita tornando o braço esquerdo positivo e os outros membros negativos, tendo ângulo de orientação de -30º;

  • aVR é feita tornando o braço direito positivo e os outros membros negativos, tendo ângulo de orientação de -150º;

  • aVF é feita tornando as pernas positivas e os outros membros negativos, tendo ângulo de orientação de +90º.

Observe a figura a seguir, aonde estão representadas as seis derivações no plano frontal, com os seus respectivos ângulos de orientação, ou seja, cada derivação e a sua perspectiva do coração!

Com base nisso, podemos agora determinar quais derivações tem melhor visualização para cada porção do coração. Como vemos na figura acima, as derivações aVL e DI são chamadas de derivações laterais esquerdas, justamente por verem de forma mais eficaz a superfície lateral esquerda do coração. De maneira análoga, DII, aVF e DIII são chamadas de derivações inferiores e aVR é a única derivação do lado direito do coração.

Para lembrarmos qual derivação é perpendicular de qual (será útil mais para frente), podemos utilizar um macete:

  • DI está perpendicular a aVFirst (aVF);

  • DII perpendicular a aVL, perceba que se remanejarmos os dois II de DII, podemos fazer a letra L de aVL;

  • DIII perpendicular a aVthRee (aVR).

 

Esse é apenas uma forma de lembrarmos, caso não ache útil, sinta-se confortável para ignorar e seguir o post.

 

DERIVAÇÕES PRECORDIAIS

As seis derivações precordiais estão dispostas agora em um plano horizontal. Desta vez, veremos o registro das correntes elétricas se movendo anterior e posteriormente! Para criar as derivações precordiais, cada eletrodo colocado no tórax é positivo, e todo o corpo é tido como um campo comum. A localização de cada um desses eletrodos estão indicadas na figura a seguir.

Assim como as derivações periféricas, as derivações precordiais também têm a sua própria visão do coração. Dessa forma, V1 é chamada da derivação ventricular direita; V2, V3 e V4 de derivações anteriores; e V5 e V6 de derivações laterais esquerdas. Isso porque V1 localiza-se sobre o ventrículo direito; V2 e V3 estão localizadas sobre o septo interventricular; V4 sobre o ápice do ventrículo esquerdo; e V5 e V6 sobre a lateral do ventrículo esquerdo.

ANÁLISE TOPOGRÁFICA

Com base nisso, podemos definir melhor quais derivações podem registrar alterações em cada parede do miocárdio (será muito importante quando estivermos falando de isquemia)! Observe na tabela abaixo.

Observe abaixo um traçado de eletrocardiograma, com as respectivas paredes analisadas por cada derivação.

VETORES

É importante lembrar que as despolarizações e repolarizações que estamos a todo momento falando ocorrem em milhares de células! Portanto, cada eletrodo do ECG registra o fluxo médio da corrente! Dessa forma, embora correntes possam estar sendo disparadas em várias direções, cada derivação registra a média instantânea dessas correntes. Para podermos compreender melhor este conceito, vamos relembrar um pouco o ensino médio, quando estudamos vetores.

Podemos fazer uma analogia muito simples para comprendermos o conceito do vetor médio. Imagine em um jogo de futebol, onde o goleiro arremessa a bola para várias direções distintas durante todo o jogo. Às vezes para a esquerda, outras para a direita e mais algumas para o meio. Ao final do jogo, a direção média de todos os arremessos do goleiro provavelmente terá sido para frente, na direção do gol oposto. Esse movimento médio das bolas pode ser representado por um único vetor. É justamente esse vetor o qual as derivações do ECG registram quando medem a corrente elétrica do coração. 

O ângulo de orientação do vetor representa a direção média da corrente, enquanto que o seu comprimento representa a voltagem alcançada. Esse conceito é realmente simples e será útil para compreendermos a leitura de um eletrocardiograma.

 

O ECG NORMAL

 

Agora você já sabe os princípios necessários para compreender o ECG normal de 12 derivações! Basta agora reunir esses conhecimentos e descobrir como cada onda é registrada em cada uma das derivações.

ONDA P

Como já vimos, a despolarização atrial inicia-se no Nó Sinoatrial, no topo do Átrio Direito, o qual se despolariza primeiro e em seguida, o Átrio Esquerdo. Dessa forma, o vetor de fluxo da corrente para o átrio aponta da direita para a esquerda e discretamente para baixo (como vemos na figura abaixo a seta grande representando o vetor).

As derivações que visualizam a corrente de despolarização atrial se movendo em sua direção, registram uma deflexão positiva no ECG. As Derivações Laterais Esquerdas e Inferiores (aVL, aVF, DI, DII, DIII, V5 e V6) se incluem nesta descrição. No entanto, no caso do DIII, há de se ressaltar: perceba que ela é uma derivação inferior posicionada mais à direita (+120º) no plano frontal, ficando quase perpendicular ao fluxo atrial. Sendo assim, comumente, esta derivação registra uma Onda P Bifásica.

A derivação aVR (-150º) visualiza o fluxo se afastando dela, registrando, portanto, uma deflexão puramente negativa. No plano horizontal, V1 (que fica sobre o ventrículo direito) está orientada perpendicularmente à direção da corrente, registrando uma Onda Bifásica, assim como DIII. As derivações V2, V3 e V4 são variáveis.

Sabemos que os átrios são pequenos em relação aos ventrículos. Por isso, a voltagem gerada em sua despolarização também é pequena, não excedendo 0,25mV (2,5mm) em qualquer derivação. A Onda P, normalmente, é mais positiva em DII e mais negativa em aVR.

Como cada pessoa é uma pessoa, existem muitas variações anatômicas entre os seres humanos. Nesse contexto, apesar da Onda P em DIII ser geralmente bifásica, não é incomum que ela seja negativa em corações saudáveis. Dessa forma, o ângulo normal de orientação dos vetores do fluxo elétrico é dado em faixas e não em números precisos.

 

A faixa normal do vetor da Onda P está entre 0º e 70º. Isso significa que a deflexão da Onda P deve ser predominantemente positiva em DI (0º) e DII (+60º), refletindo a angulação de seu vetor entre 0º e 70º (você vai entender melhor o conceito de eixo no post de hipertrofia e dilatação).

INTERVALO PR

O Intervalo PR corresponde ao tempo desde o início da despolarização atrial até o início da despolarização ventricular, incluindo o retardo na condução elétrica que ocorre no Nó Atrioventricular. Este intervalo dura de 120 - 200 ms (3 - 5 mm ou 3 - 5 quadradinhos).

COMPLEXO QRS

A corrente de despolarização, que já passou pelos átrios, segue então para os ventrículos, descrevendo o Complexo QRS.

ONDA Q SEPTAL

Estão lembrados qual a parte dos ventrículos que se despolariza primeiro? Isso mesmo, o septo interventricular. A sua despolarização ocorre da esquerda para a direita, já que a corrente parte do fascículo septal do ramo esquerdo do Feixe de His.

A despolarização do septo interventricular não é sempre visível no ECG, porém, quando visível, ela descreve uma pequena deflexão negativa (Onda Q) em uma ou mais derivações laterais esquerdas (DI, aVL, V5 e V6). Pelo fato do septo ser uma pequena parte do miocárdio ventricular, a amplitude da Onda Q não passa de 0,1mV (1mm ou 1 quadradinho).

DESPOLARIZAÇÃO DO MIOCÁRDIO VENTRICULAR RESTANTE

Agora é o momento da despolarização da maior parte do miocárdio: o restante dos ventrículos. Sabemos que o ventrículo esquerdo é muito maior que o direito, portanto, sabemos também que a despolarização ventricular esquerda domina o restante do Complexo QRS, e o vetor médio da corrente aponta para a esquerda. 

Normalmente, o vetor de despolarização dos ventrículos está entre -30º e 90º. Sendo assim, no plano frontal, grandes deflexões positivas (Ondas R) são descritas nas derivações laterais esquerdas e inferiores. Já em aVR (-150º), podemos ver uma deflexão negativa profunda (Onda S).

No plano horizontal, V5 e V6 registram Ondas R positivas altas, enquanto que V1 costuma registrar Ondas S profundas. V3 e V4 representam uma zona de transição, geralmente uma delas registrando uma onda bifásica, isto é, Ondas R e S de amplitude semelhante.

Logicamente, a amplitude do Complexo QRS é muito maior que o da Onda P, devido a maior massa muscular dos ventrículos. O Intervalo QRS dura de 60 a 100 ms (1,5 - 2,5mm).

SEGMENTO ST

Este segmento representa o tempo entre o final da despolarização ventricular ao início da repolarização ventricular. Ele geralmente é horizontal ou levemente ascendente em todas as derivações.

ONDA T

A Onda T correponde a repolarização ventricular. Diferentemente da despolarização, a repolarização é altamente susceptível a influências cardíacas ou não cardíacas (hormonais, neurológicas…), sendo, portanto de aspecto variável. Isso ocorre pelo fato da repolarização necessitar de grande quantidade de energia celular (bombas de membrana).

No entanto, no coração normal, a repolarização geralmente inicia na última área a ser despolarizada e volta, em uma direção oposta a da despolarização. Dessa forma, as mesmas derivações que registraram uma deflexão positiva (Ondas R altas) durante a despolarização ventricular também vão registrar deflexão positiva na repolarização! É típico vermos Ondas T positivas nas mesmas derivações as quais apresentam Ondas R altas.

A amplitude de uma Onda T normal é 1 a 2 terços (1/3 - 2/3) da Onda R correspondente. Já a sua duração é mais larga que o Complexo QRS. Vale ressaltar que a Onda T costuma ser assimétrica, sendo a sua simetria um possível indicativo de alteração na repolarização ventricular.

INTERVALO QT

Este intervalo inclui o tempo do início da despolarização ventricular até o final da repolarização ventricular. A sua duração é proporcional à frequência cardíaca.

 

CONCLUSÃO

 

Parabéns! Você passou a parte mais difícil da série de ECG. Daqui para a frente, tudo que estudarmos de eletrocardiograma terá estes conceitos como base! Você já tem o conhecimento necessário para identificar um ECG normal. Abaixo, está um exemplo de um ECG sem alterações!

 

Nos próximos posts, passaremos sobre hipertrofia e dilatação cardíaca; bloqueios de condução; lesão, isquemia e necrose; arritmias; síndromes de pré-excitação; e algumas outras condições que alteram o eletro. Nos vemos na próxima!

REFERÊNCIAS

  • III Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia Sobre Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos, 2016;

  • Nathanson LA, McClennen S, Safean C, Goldberger AL. ECG Wave-Maven: Self-Assesment Program for Students and Clinicians;

  • Thaler, Malcom S. ECG Essencial na Prática Diária, 2013.

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