ANTIBIOTICOTERAPIA

Quantas vezes você já leu uma prescrição de antibiótico de um paciente e não entendeu nada? Tantas classes, tantas características, diferentes coberturas, diferentes mecanismos de resistência. É, nós sabemos que antibioticoterapia parece assustador e desestimulante, mas trata-se de um assunto extremamente importante. Nosso objetivo hoje é desmistificar esse assunto e mostrar a vocês que entender os antibióticos não é nenhum bicho de sete cabeças.

Estão prontos? Então vamos lá!

INTRODUÇÃO

Antes de falarmos de cada antibiótico especificamente, é importante termos em mente dois conceitos: cada antibiótico possui uma concentração inibitória mínima (CIM) e uma concentração bactericida mínima (CBM).

A primeira (CIM) é a mínima concentração daquele fármaco capaz de inibir o crescimento bacteriano, já o segundo termo (CBM) diz respeito à mínima concentração capaz de matar 99% daquela cepa. Baseado nessas concentrações, um antibiótico pode ser:

  • Bacteriostático, se sua CBM/CIM > 1 (pois isso significa que preciso de uma concentração maior para matar do que para inibir o crescimento) ou

  • Bactericida, se CBM/CIM = 1 (isso significa que a droga atinge o potencial de impedir o crescimento na mesma concentração que elimina o patógeno).

 

Apesar dessa classificação, quando administrados em altas doses, antibióticos bacteriostáticos podem assumir função bactericida

Entendido isso, precisamos agora compreender um pouco mais sobre as bactérias e suas principais características.

VISÃO GERAL DAS BACTÉRIAS

Elas, de forma resumida, podem ser classificadas como gram positivas ou gram negativas, como cocos, bacilos, vibriões ou espiroquetas, etc.

Entendendo as bactérias...

Gram positivas:

  • Cocos: Estreptococos, estafilococos e enterococos

  • Bacilos: Listeria e clostridium

 

Gram negativas:

  • Cocos: Neisseria, moraxella

  • Bacilos: Pseudomonas, hemófilos, enterobactérias (shigella, salmonella, klebisiella e E.coli)

O que diferencia a gram-positiva da negativa?

Basicamente as bactérias gram-positivas possuem uma parede espessa de peptideoglicano que se cora com a coloração gram. Já as negativas possuem uma membrana diferente – mais complexa e especializada, digamos assim -,  formada por outros componentes além do peptideoglicano, possuindo múltiplas camadas, e que não se cora, por isso recebem esse nome. justamente essa estrutura mais complexa e o maior número de camada que as torna mais resistentes.

Além dessas classificações, tem mais alguma para as bactérias?

Além dessas classificações, as bactérias também são classificadas quanto ao seu metabolismo em anaeróbias e aeróbias, sendo essas últimas mais difíceis de serem cobertas pela maioria dos antibióticos.

OS ANTIBIÓTICOS E SUAS CLASSES

Bom, mas escolher um antibiótico vai muito além de ver quais bactérias ele cobre. É preciso levar em consideração a idade e a condição do paciente (ex. se se trata de uma gestante), a forma de administração (ex. certos ATB só estão disponíveis via endovenosa), função renal e hepática, custo, dentre outros aspectos.

E assim, no contexto do uso de antibióticos, o tratamento pode ser:

  1. Empírico, quando geralmente utilizamos antibióticos que cubram os patógenos mais prevalentes daquele tipo de infecção, ou antibióticos de maior espectro;

  2. Direcionado, quando já temos em mão a cultura com o antibiograma, e podemos escolher o espectro do antibiótico específico para o patógeno identificado;

  3.  Por fim, o uso do antibiótico pode ser profilático ou terapêutico.

 

Por isso, para sabermos identificar o melhor tratamento antibacteriano para o nosso paciente, vamos conhecer cada classe de antibiótico com seus respectivos representantes.

BETA-LACTÂMICOS

Mecanismo de Ação:

Eles possuem um anel beta-lactâmico que se liga às PLP (Proteínas Ligadoras de Penicilina), interferindo na síntese de peptideoglicano, o que acaba impedindo a formação da parede celular da bactéria, culminando na sua morte. Por isso, eles são considerados bactericidas.

Mecanismo de resistência:

  1. Produção de beta-lactamase: é o maior mecanismo de resistência, seja para gram + ou -. Essa enzima cliva o anel betalactâmico do antibiótico, impedindo a sua ação.

  2. Porinas: são exclusivas das gram-negativas, pois são elas que possuem duas membranas e assim conseguem impedir que o antibiótico atravesse as porinas da sua membrana externa.

  3. Diminuição da afinidade pelas PLP’s: nesse caso aqui, o que ocorre é que o antibiótico irá se ligar com menos afinidade às PLP’s.

 

Representantes:

  1. Penicilinas

  2. Cefalosporinas

  3. Carbapenêmicos

  4. Monobactâmicos

  5. Inibidores da beta-lactamase

PENICILINAS

As penicilinas são divididas em 4 gerações que vão consecutivamente aumentando seu espectro contra as bactérias

BENZILPENICILINAS (1ª GERAÇÃO)

Espectro de Atuação:

  • Gram +: Ela é a mais eficaz contra determinados cocos gram-positivos, como os estreptococos. Além disso, não cobre estafilococos.

  • Alguns gram – (Neisseria, treponema, leptospira e anaeróbios da boca e orofaringe)

Representantes:

1. Benzatina (IM):

É a famosa benzetacil. Ela tem uma meia vida longa - cerca de 30 dias - por isso costuma ser dose única (droga de depósito), sendo utilizada em infecções arrastadas e em profilaxia.

São muito utilizadas para faringite estreptocócica e para profilaxia da febre reumática,  além de impetigo estreptocócico e sífilis sem acometimento do sistema nervoso central, já que não penetra na barreira hematoencefálica.

 

2. Procaína (IM):

É pouco utilizada pois sua meia-vida é curta. Nesse caso ela seria administrada de 12-12 horas, o que é ruim para o paciente visto que ela é IM.

 

3. Cristalina (IV)

É mais usada em pacientes internados, em quadros agudos, visto que ela é . É ela quem eu uso pra tratar a e , por exemplo, porque atravessa a barreira hemato-encefálica (e a benzatina não).

 

4. Penicilina V (VO)

É a única disponível via oral, mas pouco utilizada na prática clínica.

 

Aplicação prática:

Elas são muito utilizadas para faringite estreptocócica e para profilaxia da febre reumática, além de sífilis, leptospirose, meningite e impetigo estreptocócico. Cobrem bem gram positivos, exceto os estafilococos.

 

PENICILINAS RESISTENTES À BETA-LACTAMASE

Espectro de Atuação:

São a 1ª escolha para infecções estafilocócicas, caso o paciente esteja internado. Caso ele precise tomar antibiótico VO, opta-se pelas cefalosporinas de 1ª geração, como veremos mais à frente.

Mas por que primeira opção em caso de estafilo?

Pois o Staphylococcus aureus, apesar de gram positivo, produz beta-lactamase, fazendo com que as benzilpenicilinas não sejam eficazes contra eles.

Obs. A meticilina é o antibiótico que “classifica” os estafilococos quanto à sua resistência. Ex: MRSA (Methicillin Resistant Staphylococcus Aureus) = estafilocococos resistentes à meticiclina. Nesses casos de MRSA, utilizamos antibióticos glicopeptídeos, como a Vancomicina, assim como veremos mais adiante.

 

Representantes:

  1. Oxacilina: é a mais usada na prática desse grupo.

  2. Meticiclina

 

Aplicação Prática:

São penicilinas exclusivamente de via endovenosa, que foram criadas para diminuir a resistência microbiana aos beta-lactâmicos, visto que elas são resistentes à beta-lactamase.

AMINOPENICILINAS (2ª GERAÇÃO):

Espectro de Atuação:

  • Gram +: Cobrem os gram positivos – com exceção de estafilococos – porém não são tão boas para esses quanto a penicilina G

  • Algumas gram – (Hemófilos e H. Pylori)

 

Representantes:

  1. Amoxicicilina (VO)

  2. Ampicilina (IV)

 

Aplicação prática:

São muito utilizadas em infecções do trato respiratório (ITR), como IVAS, PAC, além de casos de cabeça e pescoço, pois ela é boa contra os principais organismos que causam esses tipos de infecções: hemófilos e estreptococos. Também são muito usados na população de neonatos, sobretudo nos casos de meningites.

CARBOXIPENICILINAS (3ª GERAÇÃO):

Espectro de Atuação:

  • Gram +: porém um pouco menos eficazes contra esse grupo em comparação às de 1-2ª geração

  • Gram –: principalmente as Pseudomonas

 

Representantes:

  1. Ticarcilina

  2. Carbenicilina

 

Aplicação prática:

Elas mantêm o espectro das penicilinas de 2ª geração, porém também são eficazes contra pseudomonas. Geralmente as penicilinas de 3ª e 4ª geração quando são utilizadas para pseudomonas são associadas a amicacina (um glicopeptídeo), garantindo um sinergismo.

UREIDOPENICILINAS (4ª GERAÇÃO):

Espectro de Atuação:

  • Gram +: Porém um pouco menos eficazes contra esse grupo em comparação às de 1-2ª geração

  • Gram – (Pseudomonas e enterobactérias), sendo a penicilina com maior atividade contra pseudomonas

 

Representantes:

  1. Piperaciclina

 

Aplicação prática:

O antibiótico Tazocin é a combinação de piperaciclina + sulbactam (você verá logo a seguir o que é isso). São antibióticos usados mais para cobrir pseudomonas.

Mas e quando eu devo desconfiar de pseudomonas?

 

A pseudomonas é uma bactéria comum em infecções hospitalares (nosocomiais), por colonizar muitos objetos e equipamentos médicos, sendo também comum em pacientes imunossuprimidos (ex. AIDS, pacientes em pulsoterapia) e com neutropenia febril. Precisamos sempre ficar atentos a esse tipo de microrganismo pois cobrir gram negativos não significa cobertura de pseudomonas. Nesses casos, são necessários antibióticos específicos para combater esse patógeno.

INIBIDORES DA BETA-LACTAMASE

Você já pensou que as penicilinas são excelentes antibióticos e que é uma pena que algumas bactérias infelizmente produzam beta-lactamase, limitando a ação desses fármacos?

 

Pois é, foi pensando nisso que os foram criados INIBIDORES DA BETA-LACTAMASE. Eles são utilizados em casadinha com as penicilinas de 2ª, 3ª e 4ª geração, de modo a ampliar o seu espectro para bactérias produtoras de dessa enzima.

 ​

Representantes:

  1. Clavulanato;

  2. Sulbactam;

  3. Tazobactam.

Como é a combinação dessa classe com as penicilinas?

  1. Amoxicilina + Clavulanato (Clavulin)

  2. Ampicilina + Sulbactam

  3. Ticarciclina + Clavulanato (Timetim)

  4. Piperaciclina + Tazobactam (Tazocin)

CEFALOSPORINAS

As cefalosporinas, assim como as penicilinas, são divididas em gerações. Teoricamente, existem 5 gerações, porém aqui no Brasil só encontramos 4 delas.

CEFALOSPORINAS DE 1ª GERAÇÃO:

Espectro de Atuação:

  • Gram +: Principalmente estafilococo, por isso são uma opção à oxaciclina quando o paciente irá fazer uso oral do antibiótico.

  • Poucas gram -

 

Representantes:

  1. Cefaloxina (VO)

  2. Cefadroxil (VO)

  3. Cefalotina (IV)

  4. Cefazolina (IV)

 

Aplicação prática:

Essas cefalosporinas são utilizadas principalmente em opção à oxaciclina (por serem VO), em pacientes que tem infecção por estafilo e que irão tomar o remédio em casa, por exemplo. Por isso são utilizadas principalmente em infecções de pele e subcutâneo por esse microrganismo. Além disso, também são utilizadas em gestante e para profilaxia pre-operatória.

CEFALOSPORINAS DE 2ª SEGUNDA GERAÇÃO:

Espectro de Atuação:

  • Gram +

  • Mais ou menos para gram – (Hemófilos e enterobactérias)

  

Representantes:

  1. Cefuroxima (IM ou IV)

  2. Cefoxitina (IV)

 

Aplicação prática:

Elas são boas para hemófilos e pneumococo, os principais da PAC. Assim, você pode associar que penicilina de geração e cefalosporina de geração são as mais utilizadas para ITR.

 

Obs. Existe um subgrupo (Cefoxitina) que é muito bom para bacteriodes fragilies, sendo utilizadas como antibiótico profilático para cirurgias abdominais e pélvicas. Por outro lado, esse subgrupo perde espectro relacionado aos pneumococos e hemófilos!

 

 

CEFALOSPORINAS DE 3ª TERCEIRA GERAÇÃO:

Espectro de Atuação:

  • Gram – (Pseudomonas e enterobactérias)

  • Alguns gram +

 

Representantes:

  1. Ceftriaxone (IV);

  2. Cefotaxina (IV);

  3. Ceftazidima (IV);

  4. Cefixima (VO)

 

Aplicação prática:

O seu diferencial é atravessar a BHE (pois as cefas de 1ª e de 2ª não faziam isso), por isso a partir daqui eu uso para tratar meningite. Além disso, também são usadas em pneumonia comunitária e em infecções nosocomiais, por terem cobertura contra pseudomonas.

 

 

CEFALOSPORINAS DE 4ª QUARTA GERAÇÃO:

Espectro de Atuação:

  • Gram – (Pseudomonas e enterobactérias)

  • Alguns gram +

 

Representantes:

  1. Cefepime (IV)

  2. Cefpiroma (IV)

 

Aplicação prática:

São antibióticos de largo espectro utilizados em pacientes imunossuprimido, por exemplo, ou em casos de infecções nosocomiais, quando desconfio de Pseudomonas. É utilizado para sepse!

 

Obs. Reservados para casos de infecção nosocomial por Gram-negativos multirresistentes.

CARBAPENÊMICOS

São antibióticos de largo espectro, utilizados em pacientes mais graves ou infecções nosocomiais. Por isso, não deve ser primeira escolha devido ao risco de resistência bacteriana.

 

Espectro de Atuação:

  • Gram – (Pseudomonas)

  • Gram + (exceto estafilos MRSA)

  • Anaeróbios

 ​

Representantes:

  1. Meropenem

  2. Ertapenem (não possui cobertura para pseudomonas)

  3. Imepenem

 

Aplicação prática:

Bom, esse é um ATB que “pega o corpo todo” e por isso é capaz de tratar: meningite, ITR, endocardite, infecção intra-abdominal, ITU grave e sepse. Eles são extremamente resistentes à beta-lactamase, um dos motivos pelo quais eles são potentes.

Obs: Para evitar o fenômeno da resistência induzida, ou sempre que o lmipenem ou Meropenem forem prescritos para tratar uma suposta infecção por P. aeruginosa, é necessário que se associe um outro antibiótico, como por exemplo a amicacina, visando destruir todas as cepas da bactéria.

Obs: Os preparados de lmipenem já vêm associados à cilastatina, um inibidor da enzima tubular renal di-hidropeptidases I. Esta enzima normalmente degrada a molécula de lmipenem, reduzindo os níveis urinários desta substância, aumentando a chance de necrose tubular aguda.

MONOBACTÂMICOS

São antibióticos com um espectro reduzido, porém contra gram-negativos eles são muito potentes! São utilizados em casos raros, de infecções hospitalares sérias, com suspeita principalmente de Pseudomonas.

 

Espectro de atuação:

  • Gram – aeróbio: Isso significa dizer que ela NÃO age nos gram + ou gram – anaeróbios.

Representantes:

  1. Aztreonam

 
 
 

Durante a passagem pelos antibióticos você deve ter pensado:

 

Por que não uso um que pega todos as bactérias sempre?

Não seria mais fácil ao invés de ficar nessa do espectro da ação?

 

Então, não é bem assim. Assim como os antibióticos possuem uma ação benéfica no combate as bactérias que estão promovendo infecções, eles não estão livres de efeitos colaterais. Assim como o fármaco é capaz de dizimar as bactérias ruins, ele possui a mesma capacidade de fazer isso com as bactérias comensais do nosso organismo.

 

Por isso, vamos usar com cautela os antibióticos e não prescrever sem saber das consequências ruins que a prescrição pode acarretar. Diante disso, separamos algumas situações adversas que podemos nos deparar na prescrição desses fármacos.

 

REAÇÃO ALÉRGICA

É o mais comum. Ocorre em 10% dos pacientes.

 

COLITE PSEUDOMEMBRANOSA

Com o uso de certos antibióticos, as bactérias “boas” também são destruídas, o que facilita a disseminação da Clostridium Difficile. Assim, quanto maior o espectro do antibiótico, mais fácil de ocorrer essa proliferação de tal bactéria, gerando assim uma inflamação colônica devido às toxinas liberadas pela clostridium.

Mas atenção: o quadro – sobretudo a diarreia, o sintoma principal - não se inicia de forma instantânea, e sim após cerca de 72hrs da administração do antibiótico.

O tratamento da colite pseudomembranosa é feito com Metronidazol, um antimicrobiano, sendo a Vancomicina a segunda opção.

 

NEFRITE INTERSTICIAL AGUDA ALÉRGICA

Composto por uma tríade clássica de:

  1. Rash;

  2. Febre;

  3. Artralgia

O característico desse quadro é a presença de piúria sem que haja infecção.

 

ANEMIA HEMOLÍTICA AUTO-IMUNE

Caracterizada por um teste Coombs Não-Gama positivo ou por uma hemólise subaguda extravascular com teste Coombs Gama positivo.

Para ocorrer esse tipo de reação, é necessário terapia prolongada em altas dosagens, sendo que os sinais de hipersensibilidade estão ausentes.

 

EFEITO ANTABUSE OU DISSULFIRAM SÍMILE

Há uma interferência na metabolização do etanol, gerando um bloqueio da acetaldeído-desidrogenase, levando a um ↑acetaldeído (já que essa substância é degradada por essa enzima). Assim, esse acúmulo pode gerar diversos efeitos colaterais, secundários à vasodilatação. Todos os fármacos beta-lactâmicos podem causar esse efeito dissulfiram, mas são mais frequentes nas cefalosporinas.

Obs. Esse efeito recebe o nome “dissulfiram símile” pois o Dissulfiram corresponde a uma droga utilizada para alcoolistas, gerando esse mesmo efeito com o intuito de fazer o paciente abandonar o hábito etílico.

MACROLÍDEOS

 

Mecanismo de ação:

Eles agem na subunidade 50s dos ribossomos, inibindo-as. Assim, ele impede a síntese proteica e por isso são considerados antibióticos bacteriostáticos.

Mecanismo de resistência:

(1) Porinas, (2) alteração do sítio de ligação, (3) efluxo da droga, ou seja, eliminação do antibiótico para fora da célula.

 

Os macrolídeos são outra classe de antibióticos, diferente dos beta-lactâmicos. Eles possuem um espectro que é semelhante às cefalosporinas/penicilinas de 2ª geração , porém tem a vantagem de cobrir microorganismos atípicos.

Mas o que seriam bactérias atípicas?  Aquela que não é corado pelo gram, ou seja, são aquelas (1) intracelulares obrigatórias ou (2) que não possuem parede celular, a exemplo do mycoplasma, clamídia, etc.

 

Espectro de Atuação:

  • Gram +

  • Alguns gram – (Neisseria e hemófilos)

  • Atípicos

 

Representantes: formam o mnemônico ACER – e todos compartilham o sufixo “cina”.

  1. Azitromicina (2ª geração)

  2. Claritromicina (2ª geração)

  3. Eritromicina (1ª geração)

  4. Roxitromicina

 

Obs: As de 2ª geração tem espectro maior contra gram – (que é pequeno na eritromicina).

Aplicações práticas:

São bastante utilizados para PAC e para certas infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) como a clamídia, sendo a droga de escolha para o tratamento de infecções por Mycoplasma pneumoniae. Além disso, são opções uteis aos alérgicos a penicilina. Além disso, a azitromicina (a que é usada para clamídia) tem uma meia-vida muito longa, logo sua dose costuma ser única.

Obs. A eritromicina é muito usada para tratar infecções estreptocócicas, gonocócicas e treponémicas (sifilis) em pacientes alérgicos à penicilina.

Obs. A claritromicina é usada junto com a amoxicilina (+ IBP) para o tratamento da H. Pylori.

Efeitos Adversos:

  • Icterícia colestática (estolato de eritromicina)

  • Alterações gastrointestinais

QUINOLONAS

Mecanismo de ação: Atuam sobre a DNA girase, impedindo a replicação do DNA, que se torna fragmentado – o que faz com que a bactéria morra. Por isso, são antibióticos considerados bactericidas.

Mecanismo de resistência: (1) Enzimas com pouca afinidade ao ATB e (2) efluxo da droga.

Representantes: 

Elas são divididas em quatro gerações que vão consecutivamente aumentando o seu espectro.

 

QUINOLONAS DE 1ª GERAÇÃO:

Espectro de Atuação:

  • Gram - (incluindo principalmente as enterobactérias). É pouco usado na prática.

 

Representantes:

  1. Ácido nalidíxico

 

QUINOLONAS DE 2ª GERAÇÃO (FLUOROQUINOLONAS):

A partir daqui, passam a ser chamadas de fluoroquinolonas.

Espectro de Atuação:

  • Gram – (incluindo enterobactérias e pseudomonas).

  • *Gram + (não são muito boas, por isso não uso na PAC).

 

Representantes:

  1. Ciprofloxacino

  2. Norfloxacino

 

QUINOLONAS DE 3ª GERAÇÃO (QUINOLONAS RESPIRATÓRIAS):

A partir daqui passam a ser chamadas de quinolonas respiratórias, pois são utilizadas para cobrir patógenos das ITRs.

Espectro de Atuação:

Se elas são usadas para ITRs, logo cobrem:

  • Alguns Gram + (cobertura anti-pneumocócica)

  • Gram – (incluindo enterobactérias e pseudomonas)

  • Atípicos (cobertura anti-hemófilo)

Logo: Cobertura da 2ª geração + alguns gram positivo + atípicos.

Representantes: possuem em comum o sufixo “acino”

  1. Levofloxacino

  2. Moxifloxacino

 

Obs. Por também cobrirem atípicos, podem ser usadas para clamídia e micoplasma.

 

QUINOLONAS DE 4ª GERAÇÃO

Possuem a mesma cobertura das de 3ª geração, com aplicação aos anaeróbios. Ou seja, são drogas potentes e com ampliado espectro, porém não muito disponíveis.

INFORMAÇÕES ÚTEIS DAS QUINOLONAS

A ciprofloxacino é uma droga que atua nas pseudomonas, já o levofloxacino é uma boa opção para os quadros de PAC. Foram inicialmente criadas para anaeróbios gram -, principalmente para o tratamento das ITUs.

 

Porém, com esses efeitos adversos, elas têm sido menos utilizadas e chegaram a sair da diretriz de tratamento de ITU. Além disso, são contraindicadas em gestantes e lactentes.

 

De forma geral, são antibióticos para gram -, com exceção da 3ª geração, que eu uso pra PAC, pois há cobertura dos gram + e atípicos. Ou seja, perceba que nessa classe o raciocínio é um pouco diferente: o espectro vai aumentando para os gram positivos e não para os gram negativos – que já são cobertos nos de primeira geração. Entenderam?

 

EFEITOS ADVERSOS DAS QUINOLONAS

As quinolonas são fármacos que possuem uma inteiração com a síntese de colágeno. Por conta disso, existem muitos efeitos adversos relacionados ao seu uso:

  • Ruptura de tendão e tendinite

  • Dissecção de aorta e aneurisma

  • Erosões cartilaginosas (CI: < 18 anos, gestantes, mulheres em amamentação)

 

Além disso, também podem causar:

  • Efeitos gastrointestinais

  • Urticária e hipersensibilidade

  • Cefaleia, tontura, alteração transitória do sono ou humor

  • Colite pseudomembranosa, que já vimos mais acima

  • Neuropatia periférica

  • Aumento do intervalo QT

TAKE HOME MESSAGE

Para finalizar, gostaríamos de deixar aqui alguns pontos chaves para que você possa fixar o seu estudo e levar ideias para o seu dia-a-dia no hospital, ambulatório ou sala de aula!

  1. Os beta-lactâmicos é o principal grupo de antibióticos e dentro desse grupo estão as penicilinas.

  2. As penicilinas são ótimos fármacos contra bactérias gram-positivas, principalmente contra os germes estreptocócicos.

  3. O principal mecanismo de resistência contra as penicilinas é a produção de beta-lactamase.

  4. As cefalosporinas possuem quatro classes que vão aumentando de cobertura de forma crescente: começam cobrindo gram + e passam a cobrir mais organismos gram -.

  5. Os carbapenêmicos e os monobactâmicos são antibióticos para doentes graves.

  6. Os beta-lactâmicos podem causar como efeito antabuse, nefrite intersticial alérgica e colite pseudomembranosa.

  7. Os macrolídeos cobrem germes atípicos e também gram + - sobretudo pneumococo -, por isso oferecem boa cobertura para infecções do trato respiratório.

  8. As quinolonas são divididas em 4 gerações: as primeiras cobrem mais gram – e a partir da terceira há cobertura dos gram +, podendo serem usadas para ITR.

  9. As quinolonas estão associadas a efeitos adversos relacionados ao colágeno

REFERÊNCIAS

  • CLARK, M. A. Farmacologia Ilustrada. 5ª edição. Editora Artmed, 2013.

  • Hooper, D.C. Fluoroquinolones. UpToDate, 2020.

  • Graziani, A. L. Azithromycin and clarithromycin. UpToDate, 2020.

  • Letourneau, A.R. Cephalosporins, UpToDate, 2019.

  • Letourneau, A.R. Penicillin, antistaphylococcal penicillins, and broad-spectrum penicillins. UpToDate, 2020.

  • Dantas A, Alexandria F, Veras K, Carvalho C, Sousa F. Manual de Antibioticoterapia. Comissão Control Infecção Hosp – CCIH. 2002.

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